Havia motivos para preocupação, dadas a filiação socialista de Leonard e
sua condição judaica. Foram aconselhados a evitar manifestações e
levaram consigo uma carta de apresentação para o príncipe Bismarck,
conselheiro da embaixada alemã.
Em Bonn, apesar dos cuidados, deram com uma estrada fechada e se viram
encurralados por uma multidão de entusiastas nazistas que aguardava a
chegada de Göring, o segundo homem do Reich.
Os Woolf seguiram temerosos entre cartazes que diziam "O judeu é nosso
inimigo", mas não foi preciso sacar o salvo-conduto. Leonard trazia de
Londres uma fêmea de sagui chamada Mitzi que ele salvara de maus-tratos
no ano anterior.
Associated Press | ||
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A multidão tomou-se de amores pelo animal, saudando-o com gritos de
"Heil Hitler" e lançando acenos para ele e seus donos. Passaram assim
sem maiores percalços pela turba "dócil histérica". Mas quilômetro após
quilômetro acompanhou-os um desagradável senso de irrealidade.
O episódio é representativo desta vasta biografia (com fotos, adendos e
índice remissivo) de Herbert Marder, professor emérito de inglês na
Universidade de Illinois, sobre os últimos 11 anos de Virginia.
Representativo não só por essa singular mistura de política e
domesticidade, mas também por privilegiar o compromisso da escritora com
a vida.
Todos sabem que ela se afogou cerca de cinco anos depois, enchendo os
bolsos de seu casaco de pedras e entrando no rio próximo a seu chalé em
Rodmell, Sussex.
Claro que foi uma recaída da crise de 1913, quando ela tentou matar-se
com Veronal. Mas Marder não se prende à doença, de fundo
maníaco-depressivo, de que padecia a escritora. Dá-lhe a importância
devida; nem mais nem menos.
Também, na maioria das vezes, evita as explicações, sobretudo as
psicológicas, e relata os detalhes do cotidiano de Virginia ao mesmo
tempo em que procura perseguir ali os padrões ou motivos íntimos capazes
de iluminar a existência da autora.
Em seus febris esforços de criação, Virginia fazia cronogramas, revisava
furiosamente, tinha dois ou três projetos em andamento e preocupava-se
com a quantidade de páginas que escrevia a cada dia.
Ela se afligia com o acolhimento crítico de suas obras e mostrou-se
exultante com as vendas de "Orlando" e "Um Teto Todo Seu", que lograram
"contribuir para a prosperidade da Hogarth Press", a editora que
mantinha com Leonard.
Ao mesmo tempo, presenciamos seus encontros com T. S. Eilot e Freud, e
acompanhamos seus passeios pelo campo e por Londres (ela era uma
inveterada andarilha), sua agitada vida social e suas desavenças com a
tagarela cozinheira Nelly Boxall.
Nós a vemos consolando Dora Carrington pela perda do companheiro Lytton
Strachey e a irmã Vanessa pela morte do filho Julian Bell na Guerra
Civil Espanhola. Virginia sempre foi racional, mesmo quando consolava.
Rigorosa, não se permitia dizer palavras que iludissem seu interlocutor.
Sua morte foi de certa forma uma decisão racional. Não queria que
tentassem iludi-la. Talvez tenha sido este um dos padrões de sua vida,
mas Marder, como sempre, deixa as inferências por nossa conta.
VIRGINIA WOOLF: A MEDIDA DA VIDA
AUTOR Herbert Marder
EDITORA Cosac Naify
TRADUÇÃO Leonardo Fróes
QUANTO R$ 77 (584 págs.)
AVALIAÇÃO ótimo
AUTOR Herbert Marder
EDITORA Cosac Naify
TRADUÇÃO Leonardo Fróes
QUANTO R$ 77 (584 págs.)
AVALIAÇÃO ótimo
MARCELO PEN é professor de teoria literária da USP.
Via Folha Ilustrada
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